domingo, 20 de dezembro de 2009

o verão









as fotos são dos arquivos, há quase um ano nas alagoas.
esta câmera digital se foi. mas as cores ficam aí e outro verão chega logo mais

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

nota

é muito difícil começar a ler "fausto", ainda que na cadeira de balanço, quando se tem uma conversa com a atendente de companhia telefônica pendente, a atormentar-te.

depois de umas duas horas, a tão esperada paz de espírito. é tanta paz que me deu sono e o goethe vai ficar pra outro dia. de novo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

sobre os últimos dvds

eu sempre compro dvds numa lojinha da rua aurora, onde certamente essa coisa não é o ramo principal dos caras. é sempre muito barato (3 por r$20, sendo que da última vez, o vendedor me deu o 4o de brinde, porque eu sempre passo por lá) e não existe catálogo. mas de vez em quando, acha-se umas maravilhas. por exemplo, "la ley del deseo" do almodóvar.

dessa última vez foram uns brasileiros péssimos "soluços e soluções", Edu Felistoque e Nereu Cerdeira, 2001; "o casamento de louise", de betse de paula, 2001, um brasileiro bem mediano, "redentor" claudio torres, 2004 e a ótima adaptação de "naked lunch" (que em inglês leva o mesmo título), david cronenberg, 1991.

ontem à noite eu fui à padaria e foram os cinco pãezinhos mais sofridos da vida, uma mala sem alça veio puxar papo (juro que os dois assuntos têm alguma coisa a ver). era um típico representante da classe média recém enricada "eu sou filho de fulano de tal, papai foi o fundador da empresa x etc" - e não digo o nome do sujeito porque não me lembro mesmo. imagine você: camisa de gola pólo listrada, bermudinha cáqui, tênis branco e meia esticada. falando de como o pai era importante na sociedade. e eu lá quero saber disso? e depois disse que era presidente da empresa -- e eu lá idem idem?

e é muito irritante como as pessoas se projetam feito semi-celebridades, ai são paulo, esse dinheiro todo que está aqui anda lhe fazendo um mal danado. tem gente até pensando que mora em nova iorque!

acontece que o raciocínio inverso também é problemático. e é justamente a tônica d'"o casamento de louise": os pobres são sempre mais calientes e felizes. dira paes é a empregada doméstica de uma violinista; ela (a promeira, claro) toca panelas e deixa o maestro encantado. já a outra, cansada das sofisticações sem sal, acaba ficando com o ex marido da empregada, um jogador de futebol falido -- mas ah o jogo de cintura!

*


"naked lunch" é uma delícia. a começar pela atmosfera que lembra filme noir, e que se passa nos anos 40, e também lembra o "barton fink" e que não tem nenhuma teoria de salvação tosca. alguns efeitos especiais me irritaram um pouco, como aqueles bichos que são seres humanos gosmentos. mas ah, tudo bem, vá lá.

um exterminador (de baratas) e sua esposa ficam viciados no pó amarelo que é o instrumento de trabalho. e aí muitas alucinações, ele "vai" pra uma espécie de casablanca - já não sei se a referência é válida ou alucinação minha, mas realmente é algum lugar do norte da áfrica e poderia bem ser marrocos. ele tem outro nome, que já não me lembro, mas é uma espécie de lugar neutro, ou um lugar com regras próprias, diferente do resto do mundo.

e escreve um livro de que já não se lembra, e mata sua esposa (duas vezes) com um tiro na testa que já não sabemos se acontece mesmo ou não, e meu deus, a direção de arte! talvez seja uma espécie de linklater ("o homem duplo", não me lembro bem) amoral. e acho que por isso mesmo melhorado.

não sei mais, era só pra dizer dos filmes. ou só pra não dizerem...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

1975 - 2009

e, depois do filme (pasolini, "salò ou os 120 dias de sodoma"), olhando os extras do dvd; no trailler, dos trechos de resenha "o filme mais polêmico do ano" -- ou algo assim, me fez lembrar d'"o anticristo". e do pensamento político pós-moderno dissolvido.

apenas uma nota: os filmes mais polêmicos dos respectivos anos, também são fortes testemunhos do pensamento de cada tempo. o primeiro, alegoria pura (errei no teclado e escrevi "puta", talvez fosse engraçadinho manter o erro); o segundo interior pessoal e quase mesquinho, se visto por olhos antigos.

o que não quer dizer que um não seja mais importante que o outro, ou mais bonito ou o que quer que seja. mas nem o filme mais polêmico deste ano toca nas feridas coletivas. exercício do poder, sim, mas entre um casal. em última análise, entre o interior mesmo das personagens. eita época avestruz.

confesso que senti saudades de rir (de canto), e imaginei algo como os nossos milicos numa república chula de salò tentando imitar a autoridade/maneiras avançadas do exterior. algo como a exaltação da participação ridícula dos soldados brasileiros na segunda guerra.

cenografia de novo-riquismo, palavras erradas como "sutilidade" no lugar de "sutileza" e por aí vai. estando no brasil, é só olhar pela janela.



*


aproveitando o ensejo, publico aqui o texto do meu querido gabriel pro dogs and pigs, que misteriosamente saiu do ar.

aí vai:

a pantomima cristalina da história


pasô nasceu em 22, num fim-de-mundo perto de veneza. em 42 publicou um livro de poemas, poesie a casarsa, escrito em friulano; em 75, filmou salò e foi assassinado – mas, apesar da sintaxe, não houve ligação direta entre os dois eventos.


típico intelectual numa época em que o divertido era ser intelectualmente atípico, pasolini exercitou ao máximo suas idiossincrasias, sempre produzindo muito, em várias linguagens e níveis de registro. sua morte talvez marque simbolicamente o fim de uma linhagem de intelectuais, geralmente de esquerda, que na itália começou com antonio gramsci [com quem pasolini inclusive travou um diálogo poético no seu le ceneri di gramsci] – e cujo prólogo talvez tenha sido verdi, enquanto o posfácio torto pode ser o outro antonio, negri – dedicados a uma ampla gama de assuntos, que passava sempre por questões artísticas e, óbvio, pela política italiana [importa menos, nesse caso, o quão profundas foram as ligações de verdi com o risorgimento]. dentre os muitos desdobramentos do exercício político, mais ou menos conjugado com a prática artística, alguns dos filmes de pasolini parecem os resultados mais bem acabados do complexo alegórico-moral-sexo-artístico-metafísico-político que foi sua motriz e seu norte. e, dentre eles, salò, o filme da merda, alegoria requintada da violência com suave trilha sonora no meio de demonstrações violentas sem requinte nenhum, e barulhentas.


em 1975, o mundo estava quente: saigon tinha caído, chacal corria solto, a dupla caipira baader e meinhof cantava seus sucessos na alemanha, as brigadas vermelhas já tocavam a tarantella com balas e pier paolo pasolini, cineasta, poeta, tradutor e sabe-se lá mais o quê, decidiu adaptar um texto do marquês de sade, transpondo-o para repubblica sociale italiana, uma ficção da segunda guerra criada em 43 por hitler para administrar a parte ocupada da bota peninsular, depois da rendição assinada pelo rei vittorio emmanuele III. salò era a capital da ficção fascista, cuja administração estava espalhada por várias cidades no norte da itália, e foi pretexto e cenário escolhido por pasolini para reunir seus quatro demônios maiores, caricaturas masculinas da representação do poder em torno dos quais orbitariam, cada vez mais borrados, as caricaturas femininas (numa primeira elipse), demônios de segunda categoria, os de terceira, que representavam o braço armado, e finalmente as vítimas. o tempo, no filme, é um intestino, e a esquematização dos seus enunciados é peristáltica, simples e rígida [herdando algo de dante] como aquilo que enuncia; as volutas pirotécnicas do maneirismo pasoliniano só aparecem na exploração da perversidade. por isso tudo, é um filme extremamente claro e preciso: como os trens mussolinianos, chega no horário, um cristal fechado em si mesmo do qual vaza de maneira discreta uma secreção fedida.


diferente da cidade aberta, em salò, à parte a secreção, a prisão cristalina não deixa sair nada, e as vítimas, último degrau na ordem decrescente de elaboração psicológica das personagens, são só esquematizações orgânicas dispostas de modo a alimentar seus algozes. seus corpos, das funções sexuais às de excreção, sustentam o cultivo sádico do prazer dos demônios, e se não existem cenas de canibalismo é só porque elas eram desnecessárias. salò é, assim, uma reflexão violenta sobre o poder, facilitada pela existência real, 32 anos antes, deste poder desesperado e voraz, que já percebia a inevitabilidade da queda e não tinha rei ou deus a quem fazer relatórios.


em 75, o mundo estava quente, e ninguém parecia disposto a abaixar o fogo. das muitas organizações de esquerda extraparlamentar, como as chamam os italianos, atuantes mais ou menos com os mesmos métodos na península por aqueles anos, e que ajudavam com o calor, as brigate rosse são as que melhor se prestam à analogia que queremos modestamente indicar – era a única que trazia, naturalmente por oposição, vínculo explícito com o passado fascista: no nome, para o qual existem duas versões, ambas úteis neste nosso caso: uma referência às brigate nere, corpo militar da referida república fictícia, ou uma atualização da volante rossa, organização paramilitar comunista, ativa em milão de 45 a 49, responsável por uma série de homicídios e ataques a pessoas politicamente ligadas ao regime fascista. pasolini, assim como as brigate, revolvia a semântica deste mesmo passado, e, pelas suas cartas e depoimentos, percebe-se que o que norteava as opções feitas em salò eram intenções irmãs às dos vermelhos: as duas entidades, o cineasta e os brigadistas, serviam-se da "estratégia da tensão" para, à sua maneira, pensar e agir na política interna, atacando os "servos do estado" e as representações de poder que, fascistas ou não, dispunham da mesma forma as cartas das engrenagens políticas. ambas as opções igualmente violentas, igualmente simples, e trágicas.

o Partido Comunista Italiano, cômodo herdeiro do pós-guerra, não interessava aos brigadistas -- principalmente depois de 75, quando, após seus XIV congresso, o PCI conquistou acachapante vitória nas eleições para cargos executivos nas principais cidades da itália; também salò não deve ser tomado como uma obra política no sentido esquerda-direita da palavra. o descarrilho calculado do trem de pasolini, anterior ao do das brigadas, era uma outra maneira de tratar politicamente o rastro asqueroso (não pelos personagens, mas pelos símbolos e pelas instituições) do período fascista. pasô, como arguto [mas também desesperado] parecerista, chamava, em carta aberta publicada no corriere, à responsabilidade aqueles que então assumiam o poder, tentando indicar quais seriam as prioridades de combate. todas as opções políticas instituídas eram insuficientes frente às demandas do presente, e salò, com seu exagero (como as brigadas, no seqüestro de aldo moro, três anos depois), se comprometeu contra as opções pelo hábito numa feroz defesa do não, e se posicionou a favor de uma forma política muito singular de conhecimento – o que, acompanhando carlos henrique escobar [lendo nietzsche], seria "as operações artísticas responsáveis – esta ética trágica – da "ficção sem perdão"." o filme, de maneira clara, contundente e organizada, estabelece um território sobre o qual pensar, e o usa como trampolim para o presente da sua feitura, além de mero objeto reflexivo; diferente do rené char citado pela hannah arendt, sabe o que fazer com a herança sem testamento, e o que dispensar dela, pois se sabe um contundente [um pouco suicida] e comprometido ensaio (como a sua carta aberta aos vencedores eleitorais) sobre a importância política da memória. feito uma cerimônia fúnebre foucaultiana, se empenha em atualizar a recusa, e, operando analogamente aos monumentos públicos em homenagem mnemônica às vítimas de maus momentos da história, refaz a pantomima dos mortos de ambos os lados, para liberar quem quer que tenha sobrevivido de lembrá-los sozinho.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

todo compositor brasileiro é um complexado

eu acho que a mostra de cinema de são paulo deveria ser toda gratuita, mas ainda assim vi muita coisa. aleatoriamente, pulando de cinema em cinema (com a condição de ir a pé). como disse um amigo, isso pode ser interessante, mas um pouco arriscado -- e pois é, foram muitos filmes ruins, com algumas excessões brilhantes.

seguindo a ordem do catálogo (obviamente eu não me lembro da sequência dos filmes que vi), foram:

o sensacional, "todos mentem", do argentino matías piñero
um documentário formalmente convencional, mas cujo assunto era o meu querido "tom zé astronauta libertado", espanha, ígor iglesias gonzález
uma animação meio chata, requentando george orwell "metropia", suécia, tarik saleh
um documentário (este bem melodramático e bem fraco sobre exploração sexual infantil) "playground", estados unidos e ásia, libby spears
uma ficção estranhíssima, e de muito bom gosto sobre vampiros "sede de sangue", coréia do sul, park chan-wook
outro que errou na mão do melodrama "alga doce", polônia, andrzej wajda
outro que idem idem, mas um pouco pior "perseguição', frança, patrice chéreau
"coco chanel & igor stravinsky", frança, jan kounen; que valeu pela direção de arte e o casal de amigos que encontrei na fila
o longa que daria um excelente curta "arte inconsequência", alemanha, robert, laktenhäuser
um documentário bonitinho e despretensioso que leva o nome da placa do fusca-personagem-fio condutor "kfz-1348", brasil, gabriel mascaro e marcelo pedroso

e tudo bem que a mostra já tenha acabado, este não é um guia pseudo-jornalístico que faz revisões e indica ao leitor uma lista dos dez mais. também menos ainda interessa este pedido de desculpas, e até a lista, já que o que eu queria falar era outra coisa.

assistir o filme do tom zé na sua estréia, foi emocionante. aplaudi de pé e quase chorei. não porque seja cinema de altíssimo nível; daquele tipo que questiona a própria linguagem, brinca com ela, inventa e emociona. como eu disse, é convencional: algumas situações (um workshop em astúrias, entrevistas, trechos de shows, etc) intercaladas sem grandes primores narrativos, e até arrisco dizer levemente didático. o que não quer dizer, absolutamente, que a imagem seja mal cuidada.

acontece que a figura do tom zé é tão forte, e tão sensacional por si só, que já compensa todo o resto, e ainda transborda.

é como a biografia do ovalle, humberto werneck opta pela cadência cronológica, mistura citações com entrevistas com discurso indireto -- e lá pro final o "estilo" é quase insuportável. De vez em quando parece que ele vive consultando dicionários para não repetir adjetivo, e saem umas coisas bem cômicas, como "potência não pecuniária" numa página e "pau-mandado" na outra sem o menor constrangimento. de vez em quando escreve "o compositor de 'azulão'", bem à moda redação-de-vestibulando.

mas não interessa tanto assim, quando existem coisas do tipo: Tirava a roupa e o monóculo. Sentava-se, de mãos no teclado. Que coisas tocava! Lentas, dolorosas, elas estendiam no ar uma fumaça que a vista não enxergava, mas que entrava pelo corpo, ia ao fundo da alma. Exalação da sensibilidade. Um diam de repente, bateram na porta. Ovalle parou: -- Quem é? Falaram do lado de fora: -- Faz favorr, senhorr! -- Ergueu-se. Vestiu-se. Foi abrir. Encontrou uma senhora de cabelos ruivos e voz aflita: Senhorr faz favorr! Eu mora pegada deste casa. Pension Nini, meu propriedade. Senhorr! Não toca mais! Música de senhorr está muito desgraçado! Os freguês fica tudo triste, não faz despesa! Se precisa tocar, eu paga mudança de senhorr! Mais aqui eu pede: não toca! não toca mais! Música de senhorr não está bom para meu pension!

e, justamente, eu só queria dizer que não, o brasil não tem mesmo animaizinhos de presépio. (sorriso)

WERNECK, Humberto. "O Santo Sujo: A vida de Jayme Ovalle". São Paulo: CosacNaify, 2008

sábado, 31 de outubro de 2009

it's all about the colour, my darling









ah, sim: na época da terceira foto -- feita no mesmo dia e na mesma mesa do chá preto --, eu lia o sensacional "childhood, youth and exile", as memórias do herzen. (que eu saiba, não está traduzido pro português; mas a boa notícia é que existem usados baratinhos na amazon.)